Nos Estados Unidos a profissão é licenciada: programa aprovado pelo estado e exame obrigatórios. E há uma ordem que quase toda a gente inverte — o curso não é o primeiro passo, e o curso feito fora normalmente não conta para as horas.
É uma das profissões mais procuradas por quem pensa em recomeçar nos Estados Unidos: aprende-se em meses, há trabalho e não exige diploma superior. Tudo isso é verdade.
O que quase ninguém explica é a ordem das coisas — e é aí que se perde dinheiro. Muita gente começa pelo curso. O curso é o segundo passo, não o primeiro.
A ordem certa, em três passos
- Autorização de trabalho. Sem ela, nada do resto serve para nada.
- Licença estadual. Obrigatória, com horas de formação e exame.
- O emprego. Só depois dos dois anteriores.
Quem faz um curso de unhas no Brasil a pensar que já está a caminho está a fazer o passo dois antes do passo um — e, como veremos, esse curso provavelmente nem conta para as horas exigidas.

Passo 1: autorização de trabalho
Trabalhar legalmente nos Estados Unidos exige autorização de trabalho — seja por residência permanente, por um visto que permita trabalhar, ou por um documento de autorização de emprego. É o United States Citizenship and Immigration Services que trata disso, e não há atalho por via da profissão.
Este ponto é decisivo por uma razão prática: os conselhos estaduais que emitem as licenças pedem identificação fiscal no processo. Na Califórnia, por exemplo, o registo no sistema do conselho exige os últimos quatro dígitos do número de segurança social.

Passo 2: a licença estadual é obrigatória
Não existe forma legal de atender clientes como manicure nos Estados Unidos sem licença. O Bureau of Labor Statistics é direto: quem exerce esta profissão tem de concluir um programa aprovado pelo estado — de cosmetologia ou específico de técnico de unhas — e passar num exame estadual.
E há um detalhe que apanha quem vem de fora: a licença é estadual, não federal. Quem se muda de estado não leva automaticamente a licença consigo. Cada conselho tem as suas regras, e alguns reconhecem licenças de outros estados, outros não.
Quantas horas são precisas
Varia bastante, e é por isso que não se deve acreditar num número único visto na internet. Dois exemplos verificáveis, de conselhos estaduais oficiais:
- Pensilvânia: mínimo de 200 horas de instrução em tecnologia de unhas, numa escola de cosmetologia licenciada, mais aprovação nos exames estaduais de teoria e prática.
- Califórnia: 400 horas numa escola aprovada pelo conselho estadual, mais um exame escrito de 90 minutos. Não é permitido fazer o exame antes de concluir todas as horas.
Noutros estados o número é mais alto. A única forma fiável de saber é consultar o conselho do estado onde vai viver — e é isso que deve fazer antes de pagar qualquer formação.
O que não conta para essas horas
Aqui está o erro mais caro, e vale a pena ser muito claro.
A exigência é de um programa aprovado pelo estado. Um curso feito no Brasil, em Portugal ou online noutro país não é um programa aprovado por um conselho estadual americano e, em regra, não conta para as horas exigidas.
Isso não torna a formação anterior inútil — longe disso. A técnica que já traz faz com que as horas na escola americana sejam muito mais fáceis, e faz diferença no exame prático. Mas não substitui as horas. Quem chega convencido de que já tem “o curso feito” descobre isto tarde.
Onde se trabalha, e os três formatos
O setor nos Estados Unidos organiza-se de forma diferente do que é habitual em Portugal ou no Brasil, e convém saber antes de aceitar a primeira proposta.
- Empregada de salão. Salário mais gorjetas, horário definido, clientela da casa. É a porta de entrada normal para quem acaba de tirar a licença, porque não exige carteira de clientes.
- Aluguer de estação. Muito comum no setor: trabalha por conta própria dentro do salão de outra pessoa e paga um valor fixo pela estação de trabalho. Fica com o serviço e com as gorjetas, mas assume os custos e a responsabilidade fiscal — e precisa de agenda própria para compensar a renda.
- Salão próprio. Margem maior e outro nível de obrigações: licenciamento do estabelecimento, regras de higiene, inspeções e, se tiver funcionários, tudo o que isso acarreta.
Para quem chega, a sequência que funciona é quase sempre a mesma: entrar como empregada, construir clientela durante um ou dois anos, e só então pesar o aluguer de estação. Quem salta direto para a estação alugada paga renda sem ter quem a pague.

O que o exame cobra a sério
Quem chega com anos de prática costuma assumir que o exame é sobre técnica. É sobre técnica, mas não só — e a parte que reprova mais gente experiente é outra: higiene, desinfeção e controlo de infeções.
Faz sentido, quando se pensa no que está em causa: instrumentos que tocam em pele e unha, partilhados entre clientes. Os programas aprovados pelos estados dão peso considerável a esta matéria, e é onde quem aprendeu “na prática”, sem formação formal, tem mais lacunas.
Há ainda uma parte de legislação estadual — o que a licença permite fazer e o que não permite. Serviços que noutro país se fazem sem pensar podem estar fora do âmbito da licença de manicure e pertencer a outra categoria profissional.
A licença não é para sempre
Um detalhe que passa despercebido a quem planeia: as licenças estaduais têm prazo de validade e renovam-se, com custo associado. O prazo, o valor e a eventual exigência de formação contínua variam de estado para estado — mais um motivo para confirmar tudo no conselho do estado onde vai viver, e não numa página genérica sobre “os Estados Unidos”.
Quanto se ganha
Aqui há dados oficiais a sério, o que é raro nesta profissão. Segundo o Bureau of Labor Statistics, em maio de 2025, para manicures e pedicures:
- Mediana de 17,19 dólares por hora
- Mediana de 35.760 dólares por ano
Repare que é a mediana: metade ganha menos do que isto. É o número honesto, e é bastante diferente do que costuma circular em vídeos sobre “quanto ganha uma manicure nos EUA”.
A esse valor há três coisas a somar ou subtrair, consoante o caso: gorjetas, que são parte relevante do rendimento no setor; impostos, porque os valores acima são brutos; e o custo de vida do estado, que varia de forma enorme entre a Califórnia e o Texas.
O mercado está a crescer — e isso é medido
O mesmo organismo projeta um crescimento de 9% no emprego desta profissão entre 2025 e 2035, e classifica esse ritmo como much faster than the average for all occupations — bastante acima da média de todas as profissões.
Em números: cerca de 21.900 vagas por ano, em média, ao longo da década, e aproximadamente 18.600 novos empregos no período.
É das poucas profissões manuais com projeção oficial de crescimento acima da média. Por isso aparece tanto nas listas — e, neste caso, a fama corresponde ao número.
Portugal e Estados Unidos: o contraste
Se está a decidir entre destinos, esta é a diferença que mais pesa nesta profissão.
Em Portugal não é preciso licença nenhuma. A carteira profissional de manicuro existiu ao abrigo da Portaria n.º 799/90 e foi revogada pelo Decreto-Lei n.º 92/2011; desde agosto de 2011 deixou de ser emitida. Pode começar a trabalhar assim que tiver título de residência e atividade aberta.
Nos Estados Unidos é o oposto: licença obrigatória, horas numa escola aprovada e exame estadual.
Traduzindo em tempo: em Portugal fala-se de semanas; nos Estados Unidos, de meses — e isso antes de contar o tempo do processo de imigração. Explicámos o caminho português em detalhe no texto sobre trabalhar como manicure em Portugal.
Os cinco erros mais comuns
- Fazer o curso antes de resolver a autorização de trabalho. É a inversão que custa mais caro.
- Assumir que o curso feito fora conta para as horas. Em regra, não conta.
- Procurar “o número de horas nos EUA”. Não existe um: é por estado.
- Contar com a licença ao mudar de estado. Nem todos os estados reconhecem a de outro.
- Planear com médias em vez de medianas. A média sobe com os casos extremos; a mediana diz o que metade das pessoas recebe.
Conclusão
É uma boa profissão para quem emigra para os Estados Unidos: aprende-se em meses, tem procura medida e a projeção oficial é de crescimento acima da média.
Mas é uma profissão licenciada, e isso muda o plano. A ordem é sempre a mesma: autorização de trabalho, depois a escola aprovada pelo estado, depois o exame, e só então o emprego. Quem respeita essa ordem chega lá. Quem a inverte paga duas vezes pela mesma formação.
Perguntas frequentes
Preciso de licença para trabalhar como manicure nos Estados Unidos?
Sim. O Bureau of Labor Statistics indica que quem exerce a profissão tem de concluir um programa aprovado pelo estado — de cosmetologia ou específico de técnico de unhas — e passar num exame estadual. A licença é estadual, não federal.
Quantas horas de formação são exigidas?
Varia por estado. Na Pensilvânia são exigidas 200 horas de instrução em tecnologia de unhas numa escola licenciada, mais exames estaduais de teoria e prática. Na Califórnia são 400 horas numa escola aprovada pelo conselho estadual, mais um exame escrito de 90 minutos. Noutros estados o número é mais alto.
O curso que fiz no Brasil conta para essas horas?
Em regra, não. A exigência é de um programa aprovado por um conselho estadual americano, e formação feita noutro país não tem essa aprovação. A técnica que já traz ajuda muito na escola e no exame, mas não substitui as horas.
Quanto ganha uma manicure nos Estados Unidos?
Segundo o Bureau of Labor Statistics, em maio de 2025 a mediana era de 17,19 dólares por hora e 35.760 dólares por ano para manicures e pedicures. Mediana significa que metade ganha menos do que isso. A esse valor somam-se gorjetas e subtraem-se impostos.
O que preciso antes de tudo o resto?
Autorização de trabalho nos Estados Unidos — por residência permanente, visto que permita trabalhar ou documento de autorização de emprego, tratados pelo USCIS. Sem isso, a licença não resolve nada. Os conselhos estaduais pedem ainda identificação fiscal: na Califórnia, o registo no sistema do conselho exige os últimos quatro dígitos do número de segurança social.
A licença serve em qualquer estado?
Não. A licença é emitida pelo conselho do estado e não acompanha automaticamente quem se muda. Alguns estados reconhecem licenças de outros, outros não — é preciso confirmar no conselho do estado de destino.
Há procura por esta profissão nos Estados Unidos?
Sim, e está medida. O Bureau of Labor Statistics projeta um crescimento de 9% no emprego desta profissão entre 2025 e 2035, ritmo classificado como bastante acima da média de todas as profissões, com cerca de 21.900 vagas por ano em média durante a década.
É mais fácil em Portugal?
Do ponto de vista do acesso à profissão, muito mais. Em Portugal não existe licença nem carteira profissional para manicure desde 2011, quando a Portaria n.º 799/90 foi revogada pelo Decreto-Lei n.º 92/2011. A barreira em Portugal é o título de residência, não a profissão.
Qual a idade mínima?
Depende do estado e do respetivo conselho. Deve confirmar diretamente no conselho estadual onde pretende obter a licença, porque as condições de admissão à formação e ao exame são fixadas por cada estado.
Fontes oficiais
- U.S. Bureau of Labor Statistics — Manicurists and Pedicurists (Occupational Outlook Handbook) — publicado pela fonte em dados de maio de 2025
- Commonwealth of Pennsylvania — Nail Technician Licensure Snapshot
- California Board of Barbering and Cosmetology — Perguntas frequentes
- USCIS — Working in the United States
- Decreto-Lei n.º 92/2011, de 27 de julho — revoga a carteira profissional do setor em Portugal (Diário da República) — publicado pela fonte em 27 de julho de 2011
Informação verificada em 13 de setembro de 2026. As regras de imigração mudam com frequência — confirme sempre na fonte oficial antes de agir.
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A técnica adianta a escola, não a substitui
Como está explicado acima, as horas têm de ser feitas num programa aprovado pelo estado. Mas quem chega já a saber trabalhar passa por essas horas com outra facilidade — e nota-se no exame prático.
Prefere ler primeiro? Nesta página explicamos o que o curso ensina, para quem serve e para quem não serve.
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