
Mais de mil empregadores em 55 economias disseram de que competências vão precisar. A mais pedida não é técnica — é pensamento analítico. E o número que interessa aplica-se a quem fica, não a quem sai.
A conversa sobre o futuro do trabalho está quase toda focada na pergunta errada: que profissões vão acabar. Há uma pergunta melhor, e os próprios empregadores já a responderam — que competências vão ser precisas.
O relatório Future of Jobs do Fórum Económico Mundial, publicado em janeiro de 2025, ouviu mais de mil grandes empregadores que representam mais de 14 milhões de trabalhadores, em 22 setores e 55 economias, sobre o período de 2025 a 2030.
Este texto resume o que eles disseram sobre competências — e o que isso significa para quem tem de decidir em que investir tempo.
O número que devia assustar mais do que assusta
Em média, 39% das competências de um trabalhador serão transformadas ou ficarão desatualizadas entre 2025 e 2030.
Quase quatro em cada dez. E isto não é sobre quem perde o emprego — é sobre quem o mantém. A profissão continua, o nome do cargo continua, e quase metade do que a pessoa sabe fazer deixa de servir da mesma maneira.
Há, porém, uma boa notícia escondida nesse número: ele está a descer.
| Edição do relatório | Competências que ficam desatualizadas |
|---|---|
| 2020 | 57% |
| 2023 | 44% |
| 2025 | 39% |
A explicação apontada é direta: mais pessoas fizeram formação. Metade dos trabalhadores já completou alguma ação de requalificação, contra 41% dois anos antes. Ou seja, a instabilidade não caiu porque a tecnologia abrandou — caiu porque as pessoas correram atrás.
A competência mais pedida não é técnica
Esta é a parte que contraria a intuição de toda a gente.
Quando se pergunta aos empregadores qual a competência essencial, a resposta no topo é pensamento analítico — considerada essencial por sete em cada dez empresas em 2025.
Logo a seguir vêm duas coisas que também não se aprendem num curso técnico:
- Resiliência, flexibilidade e agilidade;
- Liderança e influência social.
Repare no que isto significa na prática: a competência mais valorizada é a capacidade de olhar para um problema confuso e decompô-lo. Não é saber usar uma ferramenta específica — é o que permite escolher a ferramenta certa e perceber quando a resposta dela não faz sentido.

E as competências que mais crescem
Do lado do crescimento, aí sim a tecnologia domina. As que sobem mais depressa são:
- IA e big data;
- Redes e cibersegurança;
- Literacia tecnológica.
A terceira é a mais subestimada e a mais acessível. Literacia tecnológica não é saber programar — é saber o que as ferramentas fazem, o que não fazem, e como avaliá-las. É uma competência ao alcance de qualquer pessoa, em qualquer profissão, sem voltar à universidade.
Há ainda duas que entram por outras portas: pensamento criativo, empurrado pela incerteza económica, e cuidado com o ambiente, que entrou pela primeira vez na lista das dez competências que mais crescem.
O que está a empurrar tudo isto
Os empregadores identificaram as forças que mais vão transformar os seus negócios até 2030:
| Força | Empregadores que a apontam |
|---|---|
| IA e processamento de informação | 86% |
| Alargamento do acesso digital | 60% |
| Robótica e automação | 58% |
| Aumento do custo de vida | 50% |
| Mitigação das alterações climáticas | 47% |
| Abrandamento económico | 42% |
| Energia: geração e armazenamento | 41% |
| Fragmentação geopolítica | 34% |
A leitura importante aqui é que a IA não está sozinha. O custo de vida aparece logo a seguir às tecnologias, e a transição energética e a geopolítica pesam mais do que o discurso público sugere. Quem trata o futuro do trabalho como um problema exclusivamente de IA está a ver um terço do quadro.
O saldo: mais empregos, não menos
Somando criação e destruição, a transformação prevista equivale a 22% dos empregos que existem hoje:
- 170 milhões de postos criados (14% do emprego atual);
- 92 milhões deslocados (8%);
- Saldo positivo de 78 milhões (7%).
É um saldo positivo, e isso raramente aparece nas manchetes. Mas há uma ressalva que também raramente aparece: um saldo positivo no total do mundo não protege ninguém em particular. Quem perde um dos 92 milhões não é automaticamente quem ocupa um dos 170 milhões — nem tem necessariamente as competências, a idade ou o lugar certo para isso.
Essa distância entre o número agregado e a vida de cada pessoa é, no fundo, todo o problema.

Envelhecimento, juventude e dois mundos diferentes
Duas mudanças demográficas puxam em direções opostas, e determinam realidades muito diferentes conforme o país:
- Populações a envelhecer, sobretudo em economias de rendimento mais alto, fazem crescer a procura por profissionais de saúde e cuidados;
- Populações em idade ativa a crescer, sobretudo em economias de rendimento mais baixo, fazem crescer a procura por professores e por educação.
Ambas aumentam a procura por competências de gestão de talento, ensino e mentoria — ou seja, por pessoas capazes de formar outras pessoas. Num período em que 39% das competências mudam, quem sabe ensinar torna-se estruturalmente valioso.
Uma limitação honesta do relatório
Antes de aplicar isto à sua vida, convém saber de quem são estas respostas: grandes empregadores. Mais de mil organizações que empregam, somadas, mais de 14 milhões de pessoas.
Isso deixa de fora — ou representa mal — uma parte enorme de quem trabalha:
- Pequenas empresas, que adotam tecnologia mais devagar e por outras razões;
- Trabalhadores por conta própria, que não têm departamento de formação nenhum;
- Trabalho informal, que nem entra neste tipo de inquérito.
O que isso muda na leitura: as tendências apontadas são provavelmente certas na direção e otimistas no calendário para quem não está numa grande empresa. A grande indústria adota primeiro; o resto vem atrás, e vem sem apoio.
Para quem trabalha por conta própria ou numa empresa pequena, a conclusão prática é o inverso da tranquilidade: ninguém vai pagar a sua requalificação. Se não for decisão sua, não acontece.
Como treinar a competência número um
Pensamento analítico soa abstrato, e é por isso que quase ninguém treina. Mas é treinável, e com papel e caneta.
O exercício, aplicado a um problema real do seu trabalho:
- Escreva o problema numa frase. Se não couber numa frase, ainda não o percebeu;
- Separe em três colunas: o que eu sei, o que eu não sei, o que estou a assumir;
- Ataque a terceira coluna. É quase sempre onde está o erro — as suposições que ninguém verificou porque pareciam óbvias;
- Pergunte que informação mudaria a sua decisão. Se nenhuma mudar, a decisão já estava tomada e o resto é justificação;
- Decida e escreva porquê. Guardar o raciocínio permite, meses depois, perceber se errou na decisão ou apenas teve azar.
Este hábito é também a melhor defesa contra respostas de IA erradas. Quem tem o problema decomposto vê de imediato quando a resposta não encaixa; quem não tem, aceita o que a máquina disser porque soa bem.
O que fazer com isto, concretamente
- Escolha uma competência da coluna que cresce e trabalhe-a este ano. Se tiver de escolher uma só, escolha literacia tecnológica: é a de menor barreira de entrada e a que mais muda a sua relação com todas as outras;
- Treine pensamento analítico de propósito. Pegue num problema do seu trabalho e escreva-o em partes, com o que sabe, o que não sabe e o que assumiu. É treinável, e é a competência número um;
- Não espere pela formação da empresa. Metade dos trabalhadores já fez requalificação — quem não fizer fica do lado errado de uma média que está a subir;
- Aprenda a ensinar o que sabe. Mentoria e formação estão a valorizar-se dos dois lados do mundo, por razões demográficas opostas;
- Reavalie de seis em seis meses. Num ambiente em que 39% muda em cinco anos, um plano de carreira fixo a dez anos é ficção.
Nada disto exige mudar de profissão nem voltar a estudar a tempo inteiro. Exige tratar as competências como se tratam as ferramentas de trabalho: revistas com regularidade, e substituídas quando deixam de cortar.
Que competência está a treinar?
Se tivesse de escolher uma só coisa para aprender este ano, com o tempo que realmente tem, qual seria? E a sua empresa dá formação ou cada um trata de si?
Escreva na caixa de comentários aqui em baixo.
Perguntas frequentes
Quantas competências ficam desatualizadas até 2030?
Em média, 39% das competências de um trabalhador serão transformadas ou ficarão desatualizadas entre 2025 e 2030, segundo o Future of Jobs Report 2025. O dado aplica-se a quem mantém o emprego: a profissão continua, mas quase metade do que a pessoa sabe fazer deixa de servir da mesma maneira.
Esse número está a piorar?
Não, está a melhorar. Era 57% na edição de 2020 e 44% na de 2023. A explicação apontada é que mais pessoas fizeram formação: metade dos trabalhadores já completou alguma ação de requalificação, contra 41% dois anos antes.
Qual é a competência mais valorizada pelos empregadores?
Pensamento analítico, considerada essencial por sete em cada dez empresas em 2025. Logo a seguir vêm resiliência, flexibilidade e agilidade, e depois liderança e influência social — nenhuma delas é uma competência técnica.
Que competências crescem mais depressa?
IA e big data, redes e cibersegurança, e literacia tecnológica. Esta última é a mais acessível: não é saber programar, é saber o que as ferramentas fazem, o que não fazem e como avaliá-las — está ao alcance de qualquer profissão sem voltar à universidade.
A IA é a única força a mudar o trabalho?
Não. A IA e o processamento de informação lideram, apontados por 86% dos empregadores, mas o alargamento do acesso digital pesa 60%, a robótica 58%, o aumento do custo de vida 50%, a mitigação climática 47% e a fragmentação geopolítica 34%. Quem trata o futuro do trabalho como um problema só de IA vê uma parte do quadro.
Vão existir mais ou menos empregos em 2030?
Mais, segundo as previsões dos empregadores: 170 milhões de postos criados e 92 milhões deslocados, com saldo positivo de 78 milhões. Mas um saldo positivo no total não protege ninguém individualmente — quem perde um emprego destruído não é automaticamente quem ocupa um dos criados.
Por que a procura por professores e cuidadores está a crescer?
Por duas mudanças demográficas opostas: populações a envelhecer nas economias de rendimento mais alto aumentam a procura por profissionais de saúde e cuidados, enquanto populações em idade ativa a crescer nas economias de rendimento mais baixo aumentam a procura por educação. Ambas valorizam quem sabe formar outras pessoas.
Por onde começo se tiver tempo para uma coisa só?
Por literacia tecnológica. É a competência em crescimento com menor barreira de entrada e a que mais muda a sua relação com todas as outras — permite escolher ferramentas e, sobretudo, perceber quando a resposta de uma ferramenta não faz sentido.
Fontes oficiais
- Fórum Económico Mundial — Future of Jobs Report 2025 — publicado pela fonte em 7 de janeiro de 2025
- Fórum Económico Mundial — comunicado do relatório
Informação verificada em 13 de setembro de 2026. As regras de imigração mudam com frequência — confirme sempre na fonte oficial antes de agir.
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